16 de novembro de 2014

Do Fundo do Baú - O Batman de '89


“Ei, garoto! Já dançou com o demônio à luz da Lua?”

Eu devia ter uns sete ou oito anos quando eu dancei com o demônio à luz da Lua pela primeira vez, e de lá pra cá, apesar de muuuuuuito tempo ter se passado, eu ainda tenho Batman, o filme dirigido por Tim Burton em 1989, como um dos meus preferidos, não só no ranking de filmes do Homem Morcego orelhudo da DC, mas como de todos os filmes de super-heróis de meu ranking pessoal.

Aiinn, Rodman! Mas o Batman não é um super-herói. Ele não tem poderes. Ele é um vigilante!

Ele usa uniforme? Tem máscara? Tem uma identidade secreta? Já usou cueca por sobre as calças?

ENTÃO ELE É UM SUPER-HERÓI, PORRA!


No início dos anos 90 eu era um pirralho piolhento magrelo e com cabelo black power (pois é! Acreditem!) que vivia num mundo de fantasias alimentado por revistas em quadrinhos e por desenhos animados de ação como Superamigos, He-Man, Thundercats e afins. Numa ou outra sessão de reprises, também assistia o seriado dos anos 60 do Batman (ou Bátema, para os íntimos) e pra falar a verdade, não conhecia outro Homem Morcego senão aquele meio barrigudinho interpretado magistralmente (ou de forma bem canastra!) por Adam West. Na época do lançamento do primeiro filme do Batman, eu nem sonhava em ir a cinema, e me contentava a esperar, sem grandes expectativas, que a Globo anunciasse seu pacotão de filmes para o começo do ano.


Não exijam de mim que eu lembre o ano exato em que a TV do plim-plim (Aff! Essa é velha!) passou Batman pela primeira vez na Tela Quente, mas com certeza eu estava lá pra assistir, e tirando os filmes do Super-Homem que volta e meia passavam em alguma Sessão da Tarde da vida, me lembro que foi o primeiro filme com heróis dos quadrinhos que me impactou verdadeiramente. As razões disso são óbvias: O visual fodaçaralho que o maluco do Tim Burton criou não só para o Batman, como também para tudo que envolve o personagem, desde seus equipamentos (“Onde é que ele arranja esses brinquedos?”) até a cidade de Gotham City.


Vocês já devem ter lido aqui no Blog do Rodman uma ou duas críticas minhas ao supracitado diretor de cabelos arrepiados e estilão gótico. Sim, eu realmente tenho certa animosidade a essa cisma que Burton tem pelo Johnny Depp bizarro, e acho que todos seus filmes acabaram se tornando muito repetitivos com o tempo. 


Eu gosto de Edward Mãos de Tesoura, Os Fantasmas se Divertem, de Marte Ataca! e olhe lá! Seja como for, Tim Burton fez um grande favor ao Homem Morcego quando, ao se aproveitar do clima sombrio que o personagem havia recuperado com a Graphic Novel The Dark Knight Returns de Frank Miller, ele conseguiu recriar a imagem do VERDADEIRO Batman, aquele que se mescla nas sombras e que faz os bandidos se borrarem todos só de ouvirem falar dele. Essa era a gênese do personagem criado por Bob Kane75 anos, e ele havia perdido essa aura de terror incutida em seu ser para virar uma piada reforçada pela série dos anos 60, que me perdoem os fãs, era uma galhofa sem tamanho!


Aiiinn, Rodman! O seriado era muito bom pra época e eu adoro a Feira da Fruta!

Não me entendam mal. Eu gostava da série dos anos 60. Não que eu estivesse lá pra ver na época, mas eu me divertia com as reprises que passavam no SBT (salvo engano) porque naquele final de anos 80, era tudo que tínhamos relacionado a heróis passando na TV. Quando Batman surgiu nos cinemas, no entanto, percebemos pela primeira vez, como aquele Batman azul e cinza e meio roliço era patético, e como o Batman de roupa preta, símbolo brilhante no peito e cheio das traquitanas tecnológicas era muito mais fodão!


O filme de Tim Burton não só apresentava uma versão muito melhor do Homem Morcego para as novas e velhas gerações, como também já chegou chutando bundas no mundo das superproduções. Com um orçamento milionário (35 Milhões de Doletas!), e um elenco quase estelar na época, a Warner apostou alto na revitalização do personagem, fazendo uma campanha publicitária de dar inveja a George Lucas, o criador da revolucionária saga Blockbuster Star Wars


O último Super-Homem (“Em Busca da Paz” de 1987) havia sido um fracasso retumbante para as expectativas e também para o estúdio mequetrefe que o bancou, e de forma melancólica o maior herói dos quadrinhos se despedia dos cinemas apenas para ser quase que totalmente ofuscado pelo filme de Tim Burton dois anos depois. O investimento milionário e a campanha maciça de marketing havia dado resultado, e Batman foi um sucesso estrondoso nos cinemas, o que ajudou a recolocar o personagem nos trilhos, deixando pra trás aquele tom de comédia pastelão que o permeava desde Adam West e seu menino-prodígio Burt Ward.

Santa bilheteria, Batman!


Com uma receita de mais de 400 Milhões de Dólares rendida aos cofres da Warner, Batman foi um sucesso incontestável, e se hoje os mimizentos e pela-sacos de Christopher Nolan só conseguem enxergar os problemas técnicos e a estatura ínfima de Michael Keaton vestido de Morcegão, o que fica de mais importante é o legado que o filme deixou para as décadas seguintes. Contem comigo:

O filme inspirou a MELHOR SÉRIE animada que o Bátema já teve em todos esses anos;

A trilha sonora de Danny Elfman é até hoje a principal marca do personagem, mesmo vinte e cinco anos depois;

O Batman de roupa escura (em vez da azul e cinza das HQs) foi usado como referência para praticamente TODOS os filmes que se seguiram, mesmo nas mãos de outros diretores. Até o Nolan usou;


O Batmóvel criado por Tim Burton continuou sendo usado, com certas variações, até o quarto (e mais lamentável) filme, e recebeu versões também na série animada e nos quadrinhos, assim como a Batwing em formato de morcego, que eu nunca tinha visto antes do filme;


O Batman planando de asas abertas virou mania depois que isso foi apresentado no primeiro filme;


Porra! Se isso não é deixar um legado, o que é então?

Se olhado com atenção nos dias atuais, num universo em que qualquer filme mequetrefe acha que se segura apenas apoiado nas muletas dos efeitos digitais de ponta, Batman funciona muito bem apenas com seus efeitos práticos, sem a necessidade de grandes pirotecnias computadorizadas. O roteiro, escrito por Sam Hamm e Warren Skaaren, chega a ser ingênuo de tão simples, mas são mesmo os personagens que conseguem segurar o filme, com diálogos marcantes, frases que grudam feito chiclete na cabeça e com atuações muito seguras.

Atuações

É fato “venéreo” que o Coringa é o maior adversário do Batman nos quadrinhos, e seria impossível não dar-lhe moral logo de cara no primeiro filme do Homem Morcego, colocando-o para bater de frente com o dono de Gotham. Sempre foi dito que o Palhaço é a antítese exata do Batman, adversário mais do que físico, e a escolha de Jack Nicholson para o papel foi um dos grandes acertos de Tim Burton, uma vez que o ator, que na época JÁ ERA veterano, com papeis fabulosos nas costas como o pirado Jack Torrance de O Iluminado e tendo ganhado, inclusive um Oscar por sua atuação em Um Estranho no Ninho, acabou roubando o filme com sua atuação magistral do Coringa. 


 Há quem diga que Jack Nicholson tenha se baseado no Coringa da série dos anos 60, interpretado pelo hilário César Romero, e que por isso, criou um personagem caricato demais, mas tendo em vista o que o Coringa sempre representou nas HQs, é possível ver uma excelente representação dele na tela, embora eu duvide que Nicholson tenha sequer segurado algum exemplar das HQs do Batman em mãos para compor seu papel.


 Seu Coringa é o que o personagem representava nos quadrinhos, um agente do caos a serviço de si próprio e que além de tocar o terror, SE DIVERTE com isso. No começo do filme ele é Jack Napier, um gângster que acha que tem nas mãos o chefão do crime de Gotham, mas que abusa de sua sorte e que acaba sendo traído por esse mesmo chefão. Quando ele cai na armadilha, é cercado não só pela polícia, mas também pelo próprio Homem Morcego, que acaba sendo o responsável direto pelo acidente que deforma seu rosto.

Aiiin, Rodman! Nem é assim que acontece nos quadrinhos e mimimimi!


Na Graphic Novel A Piada Mortal, escrita por Alan Moore, o Coringa é, na verdade, um comediante falido que acaba sendo levado a cometer alguns crimes, oculto pela identidade de O Capuz Vermelho, para sustentar sua família. Num desses grandes assaltos, o Batman aparece e acontece exatamente a mesma coisa que acontece no filme: ele cai no ácido, sua cara fica deformada e ele decide se tornar o Coringa. Só que não existe Jack Napier e nem chefão do crime. Hoje em dia com o Reboot da DC, nem faço ideia de como é a origem do Palhaço, o Bobo, O Joker, O Bobo, mas na antiga cronologia foi assim que aconteceu.


Seja como for, Jack Nicholson interpreta um dos melhores Coringas do cinema, e que tem mais a ver com os quadrinhos do que o que Heath Ledger fez anos mais tarde, embora ambas tenham sido atuações dignas de nota. O Coringa de 1989 é perigoso, é louco, mas é extremamente engraçado, algo que faltou na época de O Cavaleiro das Trevas de Cristopher Nolan. A cena em que ele se apresenta para os chefões criminosos de Gotham e termina eletrocutando um deles com um aperto de mão é sensacional. Não bastando ter torrado o sujeito, o Coringa ainda dialoga com ele depois de morto. Genial!


Michael Keaton seria de longe a última opção a ser escolhida caso alguém me pedisse para elencar um ator que serviria para interpretar Bruce Wayne, o alter-ego do Batman. Me digam como um nanico daqueles conseguiria impor respeito ou causar pavor na bandidagem sórdida da cidade mais corrupta dos Estados Unidos? Mas não é que ele conseguiu!!


Tudo bem que para mim na época em que Batman passava na TV esse era um detalhe que nunca me incomodou, até porque pra mim, pouco me importava quem era Bruce Wayne, o que me interessava era ver o Batman, e ele era muito maneiro com aquele visual criado por Tim Burton!

Em que mundo alguém chama o mesmo ator que interpretou o Beetlejuice para ser o Batman?


Talvez para Tim Burton isso faça algum sentido, mas para a maioria das pessoas, parece ser uma ideia insana. Revendo o filme, tentando afastar o preconceito de que o Batman é um baixinho de um metro e meio, comecei a prestar a atenção na atuação de Michael Keaton, e ela não deixa nada a dever. E olhe que ele estava encarando Jack Nicholson em cena!


Seu Bruce Wayne é soturno na medida certa, se mostra torturado pelo crime que mudou sua vida ainda na infância, mas ainda consegue ser um sujeito divertido quando quer. A cena em que ele dá uma trolada em Vicki Vale e em seu parceiro Knox chegando de surpresa em sua sala de “troféus” deixa isso muito claro. Não há dúvida sobre a sexualidade de Wayne nesse filme (e na verdade em nenhum dos filmes dirigidos por Tim Burton, já que em um ele pega a Kim Basinger e no outro a Michel Pfeiffer!), e ao se interessar pela fotógrafa Vicki Vale ele vai fundo na conquista, não sossegando até tê-la em sua cama. Quando ele começa a se afastar dela, não é porque ele se “cansou daquela rachada hor-ro-ro-saaa”, mas sim porque tem medo de trazê-la para sua vida cheia de traumas e cismas. Algo típico do Batman.


O nome de Keaton aparece depois do de Jack Nicholson no pôster oficial do filme, até mesmo pelo peso artístico que cada um tem, e se podemos considerar Batman de Tim Burton um filme mais do Coringa do que do próprio Homem Morcego, quando é requisitado, Michael Keaton não faz feio. Ele tem cenas muito boas, e sua expressão de tensão quando ele percebe que o Coringa é o assassino de seus pais (!!) fala por si só em uma cena que não contém qualquer diálogo.


Uma vez elenquei aqui um Top 10 com meus amores de Hollywood, e ela estava lá por razões óbvias. Na década de 90 Kim Basinger estava ainda no auge de sua beleza, e ela era uma escolha quase que certa para interpretar a fotógrafa Vicki Vale, que nos quadrinhos, pelo que me lembro, nunca teve uma personalidade muito bem definida. Sem abusar de sua sensualidade latente, mas servindo como um interesse romântico para Bruce Wayne da melhor qualidade, e uma mocinha em perigo que herói nenhum se recusaria em salvar, Kim está inesquecível em seu papel, que apesar de não exigir nenhum rompante dramático e/ou artístico de sua parte, funciona bastante para a proposta do filme de Tim Burton.


Em Gotham devido seu interesse incomum por morcegos (!) Vicki se vê interessada pelo Homem Morcego que, dizem, ronda as noites da cidade sombria. Ao mesmo tempo ela acaba se envolvendo com o bilionário Bruce Wayne, sem saber de início que ele e Batman são a mesma pessoa. Procurando mergulhar fundo na psique abalada de seu amante, Vicki descobre que os traumas sofridos por ele na infância o fizeram se transformar no homem duro e psicótico que ela conheceu, e entende completamente a razão de existir um Batman. 


O papel de Kim é burocrático, mas sua beleza na época contribuiu bastante para o visual do filme, num cenário que exigia uma bela mulher desfilando por lá. E cá entre nós, ver o Batman e o Coringa saindo no tapa por causa dela foi engraçado!


Batman ainda conta com Michael Gough como o fiel mordomo Alfred (lembrando bastante o Alfred mais velhinho da série dos anos 60), Pat Hingle como o Comissário Gordon (bem diferente da sua versão dos quadrinhos) e Billy Dee Williams, o Lando Calrissian da Trilogia Star Wars Clássica como Harvey Dent (!), o promotor, que no filme nem é citado como tal, que mais tarde se torna o Duas Caras


Obviamente Joel Schumacher, o diretor de Batman Forever, ignorou completamente o fato de Harvey Dent ter aparecido na pele de um ator negro nos dois primeiros filmes e escalou o mal encarado Tommy Lee Jones para encarnar o promotor em seu filme.  Se o elenco para os personagens coadjuvantes de Burton parece meio discrepante com relação a suas características básicas provenientes dos quadrinhos, pelo menos tivemos a ótima atuação de Jack Nicholson como Coringa, que vale como um todo para quem gosta do bom e velho Coringa de várzea.


O Batman de 1989 inspirou muita coisa tanto no cinema quanto nos próprios quadrinhos, e muita gente assim como eu, deve ter crescido com a figura do morcego criada por Tim Burton na cabeça muito mais nítida do que a série dos anos 60 fez para a geração anterior. 


Eu via minha mãe comentando “Nossa! Pra que essas orelhas tão grandes no Batman?”, obviamente levando em consideração o visual com orelhas curtas usado por Adam West a qual ela estava acostumada, e o visual sombrio do filme deve ter incomodado muita gente que esperava aquela coisa mais colorida da série, algo que Joel Schumacher homenageou com excelência nas duas terríveis sequências após a saída de Burton da direção dos filmes.


O traje do Batman de 89 é a meu ver o melhor de todos que já vimos no cinema, até porque  ele é preto, o que seria o mais indicado para um cara que quer surpreender a bandidagem à noite, ele é uma mescla perfeita de armadura e uniforme e tem uma máscara assustadora, que deve dar um cagaço em qualquer um que a fite mesmo que de relance.


As traquitanas usadas pelo herói no filme também revolucionaram a forma como o personagem passou a agir nos quadrinhos. Na década de 70 estávamos acostumados a ver o Morcego arremessando cordas com um batarangue amarrado na ponta para escalar prédios, e de repente vemos o cara com um mini-arpéu de bolso disparando ganchos no filme.

E o Batmóvel?

Putaquepariu!


Até hoje é meu carro preferido do Batman (até elenquei ele aqui como umas das super-máquinas do cinema), e embora seu design só permita que ele ande em pistas planas de tão rebaixado, e que lombadas e quebra-molas em Gotham fariam com que o assoalho do carro ficasse para trás, é indiscutível a imponência que aquele carro causa com aquela turbina na parte traseira e o ronco de seu motor potente. E isso porque nem citei o cockpit e a blindagem que nos fez pensar porque diabos o Batman e o Robin dos anos 60 andavam por aí num Batmóvel sem capota!!


Batman marcou toda uma geração que passou a admirar o Batman por seus feitos heroicos e por seu visual assustador, e se hoje o personagem completa 75 anos, nada melhor do que comemorar essa data querida comentando sobre um elemento que certamente foi um divisor de águas na cronologia dele, pelo menos nos cinemas.



NAMASTE! 

10 de novembro de 2014

Gotham antes do Batman


A série Smallville (“Somebody saaaaaave meee!”) me deixou um gosto amargo na boca “no que se refere a questão” de séries televisivas que envolvem personagens de quadrinhos, e até a ótima adaptação de The Walking Dead pela FOX e de Arrow pela CW, eu continuava acreditando que nada decente poderia ser criado para a TV com base nas HQs. Sim, eu era aquele tipo de fã chato que não se conformava que se alterasse uma linha de roteiro sequer da obra original, por isso nunca fui com a cara de Smallville que mostrou (em 10 TEMPORADAS!!!) o passado de Clark Kent antes de se tornar (oficialmente) o Superman.

Sim. 

Antes dele colocar a cueca vermelha por cima da calça, ele já tinha saído no braço com o Brainiac, com o Apocalypse e até com o Darkseid, sem falar que já tinha encontrado a Liga da Justiça quase que inteira, já tinha viajado para Metrópolis, encontrado a Lois Lane e trabalhado no Planeta Diário. Porra! Não dava pra levar essa merda a sério.

Quando soltaram a sinopse da série Gotham e eu li que o programa iria abordar a juventude do detetive James Gordon em uma Gotham City atolada até as tampas na criminalidade, mas que mais do que isso, iria também mostrar o passado da galeria de vilões do Batman ANTES de Bruce Wayne sequer receber a visita de um morcego na sala de casa, uma trilha sonora me veio à cabeça:

“SOMEBODY SAAAAAAAVE ME!”

Parecia ali que uma tremenda ideia de jerico estava se estabelecendo, e que iriam repetir o mesmo erro cometido em Smallville desta vez com Gotham e o Batman: Antecipar tudo que acontece na vida inteira de um personagem no futuro em seu passado.


Bastaram alguns episódios de Gotham, no entanto, para que eu entendesse que não é possível “adolescentizar” o universo sombrio do Batman com a mesma facilidade com que isso aconteceu com o “Superboy” de Smallville. O Batman é por concepção um personagem urbano com o pé mais fincado na realidade, e todo seu universo é calcado no submundo de uma cidade extremamente corrupta, onde seus moradores estão acostumados a conviver com a máfia, o crime e a podridão social. Todos esses ingredientes formam um enredo muito bom para uma série de TV, e é exatamente nisso que Gotham aposta em seus primeiros episódios, deixando a mística do Homem Morcego e seus arqui-inimigos fantasiados um pouco de lado enquanto mergulha mais fundo no mundo do homem (no caso, a figura de James Gordon, vivido por Ben McKenzie) que busca trazer um senso moral para um lugar onde ele é considerado obsoleto.


Na série Gotham, James Gordon já é um oficial da Polícia (DPCG) quando os filantropos Thomas e Martha Wayne são assassinados no Beco do Crime por uma figura encapuzada cujo rosto só é visto por Selina Kyle (Camren Bicondova), uma adolescente que mora nas ruas fugindo de orfanato em orfanato. 



A cena antológica da morte dos pais do jovem Bruce (David Mazouz) já foi repetida à exaustão no cinema, mas nem a versão de Tim Burton e nem a de Christopher Nolan (essa, aliás, a mais sem emoção de todas) conseguiu retratar o sofrimento do menino que perdeu os pais de forma tão brutal de um jeito tão convincente, o que rendeu bons pontos positivos para a série logo de cara. Depois do crime, James Gordon entra em cena junto do parceiro Harvey Bullock (Donal Logue) para tentar desvendar a identidade do assassino do casal mais proeminente da cidade, em promessa feita ao chocado Bruce Wayne, que é levado para casa pelo fiel mordomo da família Wayne Alfred (Sean Pertwee).


Nos primeiros episódios um suspeito do crime já é desvendado após uma investigação que leva Gordon e Bullock até o colar de pérolas roubado de Martha Wayne no dia do crime. As pistas se aquecem quando eles chegam ao ex-presidiário Mario Pepper e ele reage ante a acusação de ser o assassino do casal Wayne. Num rápido vislumbre, é revelado que, apesar de NÃO SER o verdadeiro assassino e sim parte de um plano bem engendrado pela máfia local de encontrar logo um culpado pela morte dos filantropos e calar a Polícia, Pepper é o pai da pequena Ivy, que mais tarde viria a ser conhecida como a sedutora Hera Venenosa


Quando percebe, James Gordon já está bem no meio da guerra particular entre dois dos mais poderosos chefes do crime de Gotham, Carmine Falcone (John Doman) e Sal Maroni (David Zayas), e graças às conexões de seu parceiro Bullock, também na mira da perigosa Fish Mooney (Jada Pinkett Smith), o braço direito do velho Falcone. Após um ardil muito bem montado por Falcone, Gordon se vê obrigado a eliminar um dos dedos-duro do time de Mooney se quiser se manter vivo, e o policial tem que forjar a morte do ambicioso Oswald Cobblepot (Robin Lord Taylor), já que seu código de honra imutável o impede de matá-lo de verdade. Achando que assim ganhou a alma e a cooperação do último policial honesto de Gotham, Falcone dá por encerrada as buscas pelo verdadeiro assassino de Thomas e Martha Wayne, fazendo com que Gordon o tenha que fazer nas sombras, longe dos olhos até mesmo de seu parceiro Bullock.


De forma bem competente Gotham nos mostra que Jim Gordon está sozinho nadando num mar de tubarões famintos que irão devorá-lo a qualquer movimento falso que ele der, e essa sensação de estarmos andando na mesma corda bamba que Gordon é o principal atrativo da série, enquanto vamos percebendo o quanto aquela cidade PRECISA de um Batman. Se de um lado percebemos que toda a força policial come nas mãos de Falcone e que o submundo do crime consegue agir de forma tão pomposa e atrevida à luz do dia, por outro, vemos Gordon lutando para manter seus ideais enquanto tudo a sua volta afunda na lama. Com o peso da suposta morte de Cobblepot nas costas, ele começa a ser investigado pelos representantes da UCE (Unidade de Crimes Especiais) Renee Montoya (Victoria Cartagena) e Crispus Allen (Andrew Stewart-Jones), que acreditam que, assim como boa parte da força policial, Gordon também esconde esqueletos no armário.


Para manter a sanidade, James conta com o apoio da jovem namorada Barbara Kean (Erin Richards) que vê o companheiro mudar ao passo que seu trabalho começa a interferir na relação entre os dois. Sem saber de imediato o que James foi obrigado a fazer para se livrar  das garras de Carmine Falcone, Barbara começa a ser instigada por Renee Montoya, com quem teve um caso anteriormente, a desconfiar de James, uma vez que as evidências começam a apontar que ele eliminou mesmo o capanga de Fish Mooney. Não sei bem se um relacionamento entre Montoya, que nas HQs é declaradamente homossexual, e a esposa de James Gordon chegou a ser sugerido, mas confesso que isso meio que foi uma surpresa para mim, considerando que nunca tinha ouvido falar em nada parecido. Seja como for, esse amor antigo acabou apimentando as coisas, já que Montoya começa a tomar certas atitudes contra Gordon mais movida pelos sentimentos do que apenas pela razão.


Diferente da minha opinião inicial que era calcada COMPLETAMENTE por um PREconceito em que eu a havia estabelecido, eu tenho gostado de Gotham. Alguns escritores já haviam tentado nos mostrar o universo do Batman sem que ele participasse ativamente (Gotham City contra o Crime escrita por Ed Brubaker, por exemplo), e embora vejamos os vilões do Morcego como o Victor Zsasz (Anthony Carrigan) e às vezes características deles, como o Veneno que fortalece o vilão Bane, já pipocando na tela em suas versões sem-fantasia, a série trata tudo de uma forma bem adulta, sem escapismos baratos para apenas citar um ou outro personagem. Há uma trama correndo solta, e o foco continua sendo em James Gordon, que a meu ver, nunca foi um personagem lá dos mais interessantes, funcionando mesmo apenas como um coadjuvante que liga o batsinal e se esconde atrás da asa do morcego quando o bicho pega.


Os personagens coadjuvantes, por falar neles, também têm seus atrativos, e para ajudar nas investigações dos crimes que abundam em Gotham, Gordon e Bullock contam com o engraçado detetive forense Edward Nygma (Cory Michael Smith) que sempre tem uma “charada” na ponta da língua, embora ninguém o deixe completá-las. O nerd frustrado que é vidrado na arquivista da DPCG já mostra talento com relação ao futuro mestre do crime que ele virá a ser dentro do colante verde com a interrogação no peito, e embora esteja do lado da lei nessa primeira temporada, já é possível perceber as razões que o levarão a atravessar a linha maniqueista entre o certo e o errado.


Nenhum futuro vilão do Batman brilha mais nessa série, no entanto, que o Pinguim. Sim. O Pinguim, o vilão mais idiota do Homem Morcego que só conseguiu ser minimamente interessante UMA ÚNICA VEZ na vida, na pele de Danny DeVitto em Batman O Retorno, de Tim Burton. O ator Robin Lord Taylor dá vida a uma das melhores caracterizações de Oswald Cobblepot que já se viu em outra mídia diferente das HQs (o que não é assim tão difícil!) e sem nadadeiras, deformações ou qualquer outra das bizarrices insanas de Tim Burton, ele consegue nos convencer de que pode sim ser um bom personagem, agindo onde ele se dá melhor, no mundo das intrigas e disse-me-disse. O papel do Pinguim é justamente esse, o de causar o maior número de intrigas possível entre as duas maiores famílias criminosas da cidade, e sua forma de agir nos mostra que o que ele quer mesmo é ver o circo pegar fogo e reconstruí-lo à sua imagem das cinzas. Com trejeitos meio afeminados e por vezes desajeitados, Pinguim é o verdadeiro maestro por trás do que acontece entre a rivalidade de Falcone e Maroni, e pelo visto ele será um personagem ainda mais importante até o fim da série.


É complicado se acostumar a ver Gotham City sem a sombra do Batman pairando sobre ela, e às vezes dá certa ansiedade em vermos logo o fedelho chatinho Bruce Wayne saindo pra treinar e enfim se tornar o Cavaleiro das Trevas. Por ora a série vem cumprindo seu papel de entreter a audiência e não sentimos tanto a falta do Homem Morcego. Enquanto as sementes da luta pela justiça vão sendo incutidas na mente do jovem Wayne, auxiliado por Alfred, nos contentamos em ver a luta de James Gordon para tornar sua cidade menos corrupta. Só não sei se iremos esperar muitas temporadas de uma série do Batman SEM o Batman. Essa brincadeira talvez canse.



NOTA: 8,0 por enquanto.

Ps.: Sou só eu ou mais alguém percebeu a semelhança entre a jovem Camren Bicondova que interpreta a Selina Kyle de Gotham e a atriz Michele Pfeiffer que interpretou a Mulher Gato em Batman O Retorno? 



Ps. 2: E não é estranho que o ator que interpreta o Pinguim se chame "Robin"?


NAMASTE! 

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