14 de agosto de 2012

O que sobrou das Olimpíadas de Londres


Os Jogos Olímpicos de Londres se encerraram com um espetáculo grandioso (que já era de se esperar, visto a abertura do mesmo) e ao final da cerimônia, Londres passou o bastão para o Rio de Janeiro, próxima sede das Olimpíadas no ainda longínquo ano de 2016, se é que o mundo sobrevive ao fim de 2012.
O resultado no quadro geral de medalhas do Brasil, apesar do gosto amargo que fica ao vermos nosso país em 22º colocado, atrás de Irã e Cazaquistão, é positivo.
De todas as participações em Olimpíadas, essa é a primeira vez que o Brasil supera a marca de 15 medalhas conquistadas por seus atletas (em Londres foram 17 medalhas), apesar de que em Athenas, com um número menor de medalhas, conseguimos o 16º lugar no ranking, devido a maior quantidade de medalhas douradas (5 no total).
O saldo é positivo?
Sim, apesar de que sabemos muito bem que é possível melhorar.
Em primeiro lugar é preciso ter a humildade de aceitar que dificilmente vamos alcançar algum dia a eficiência de potências olímpicas como Estados Unidos (que voltou ao topo do ranking com nada mais nada menos do que 104 medalhas, sendo destas, 46 de Ouro) ou China (que conquistou 87 medalhas, sendo 38 de Ouro), e é essa realidade que deve ser encarada. O que o Brasil tem que usar como inspiração, no entanto, é a preparação que os atletas norte-americanos ou chineses ou russos ou britânicos têm ao longo dos quatro anos que os separam de uma Olimpíada a outra.

Nesses países, obviamente melhor desenvolvidos que o nosso e com mais grana para investir em esporte (o que não é uma prioridade no Brasil) os atletas são profissionais com letra “P” maiúscula, eles trabalham apenas com o intuito de serem os melhores naquilo que fazem e recebem incentivo para isso. Em terras brasilis, o sujeito não só tem que ter outra profissão além da de atleta para poder se sustentar, como também não recebe qualquer apoio governamental para praticar aquilo que ele gosta e sabe fazer, tendo muitas vezes que tirar dinheiro do próprio bolso para viajar e competir.
Ou você acha que todo atleta é milionário e só não ganha medalhas porque é incompetente?
Fisicamente ou mentalmente um atleta chinês ou americano não são em nada superiores a um brasileiro, eles só possuem melhor treinamento e melhores condições de se preparar fisicamente para competir. Eles não são mutantes insuperáveis ou algo assim...
Bem, talvez o jamaicano Usain Bolt (que conquistou 3 medalhas de Ouro para seu país) e o nadador americano Michael Phelps (4 medalhas de Ouro e duas Pratas) sejam, mas eles são de uma categoria à parte.

Para que o Brasil melhore seu desenvolvimento e rendimento em jogos olímpicos e comece a ser visto também como uma potência nos esportes, muitas coisas devem mudar, a começar por esse pensamento de que “o importante é competir”. Não, não é. Isso é desculpa de quem perde. O importante é competir e ganhar, e se não ganhar, o importante é treinar mais para ganhar na próxima.

Além de pensar grande, os atletas necessitam de apoio financeiro para que tenham centros de treinamento dignos, com equipamentos novos e todo acompanhamento médico e preparatório do qual precisam, fazendo assim com que eles tenham reais condições de disputar campeonatos de alto nível. Para que isso aconteça, no entanto, é preciso que o governo crie projetos e leis de incentivo para patrocinadores que facilitem a vida desses caras, que apesar de estarem lá fora lutando como guerreiros enfrentando todas as adversidades para representar o país, só conseguem críticas, tanto da mídia (que pouco faz para ajudar realmente) quanto do próprio público, que não enxerga tudo pelo qual seus atletas passaram para conseguir chegar lá.
Em Londres, nossos guerreiros conseguiram 17 medalhas, sendo 3 de Ouro, 5 de Prata e 9 de Bronze, e apesar de algumas lamentações como a derrota da Seleção Masculina de Basquete, que em sua melhor forma e com um dos melhores times já formados em todos os tempos, perdeu para a Argentina, sendo eliminado da competição sem nenhuma medalha, da passagem insossa e sem qualquer brilho da ginástica feminina, que provou que não conseguiu renovar sua equipe com o envelhecimento de Dayane dos Santos e Danielle Hypolito, e da falta de resultados no atletismo, que geralmente consegue medalhas nas competições, o Brasil conseguiu melhorar bastante o desempenho em 2012, se comparado pelo menos aos jogos olímpicos anteriores.

Nossa primeira medalha de Ouro já saiu no primeiro dia de competição, o que nos deu aquela esperança de que enfim teríamos atletas para competir em alto nível. No Judô, a piauiense Sarah Menezes de 22 anos conquistou o lugar mais alto do pódio derrotando a romena Alina Dumitru (medalhista de Ouro em Pequim), tornando-se assim, a primeira brasileira a conquistar o Ouro olímpico na categoria. 

O Judô ainda conseguiu mais 3 medalhas de Bronze para o Brasil, com Felipe Kitadai, que derrotou o italiano Elio Verde também no primeiro dia de competições em Londres, Mayra Aguiar de 20 anos que venceu a holandesa Marhinde Verkerk com um ippon, e Rafael “Baby” Silva, o paranaense de 25 anos, que ganhou do sul-coreano Kim Sung-Min o terceiro lugar da categoria peso-pesado.


Na natação, as medalhas também saíram, primeiro a de prata com Thiago Pereira (VAAAAI, THIAGO!!) nos 400m Medley e a de bronze com Cesar Cielo nos 50m livre. Tendo em vista que na água quando Tévis Michael Phelps nada não tem pra mais ninguém, até que essas duas medalhas conquistadas por Thiago e Cielo vieram bem a calhar.
Ainda na água, decepcionando um pouco aqueles que o julgavam um dos favoritos, mas confirmando o talento nato para velejar, ganhando mais uma medalha e tornando-se um dos maiores medalhistas olímpicos brasileiros de todos os tempos, Robert Scheidt ao lado de Bruno Prada conquistou a medalha de Bronze da classe Star na Vela. 
Subindo ao pódio pela quinta vez em Olimpíadas, Scheidt de 39 anos, igualou a marca de Torben Grael (também velejador) como o maior medalhista brasileiro, tendo conquistado o Ouro em Atlanta (1996) e em Athenas (2004) e a Prata em Sydney (2000), todos pela Classe Laser. Ao mudar de categoria, passando para a Classe Star, Scheidt conquistou a Prata em Pequim (2008) e agora o Bronze em Londres.
É ou não é um campeão?
Alguém ainda está decepcionado?

Ainda nos esportes individuais, a atleta Adriana Araújo, baiana de 31 anos, conseguiu levar o Boxe brasileiro ao pódio novamente após 44 anos na fila (a última medalha conquistada pelo esporte havia sido em 1968, pelo pugilista Servílio de Oliveira), o que a tornou também a primeira boxeadora brasileira a ganhar uma medalha olímpica. Quem também trouxe medalha para casa foi o pugilista Esquiva Falcão, que perdeu o Ouro na final contra o japonês Ryoto Murata, após ser punido por falta e perder dois pontos, apesar de ter sido muito melhor dentro do ringue. Para quem assistiu a luta, o gosto da prata foi incômodo, uma vez que o Ouro era quase certo e ficou separado das mãos do lutador por apenas um ponto.
Yamaguchi Falcão, lutador de 24 anos da categoria meio pesado (até 81 kg) trouxe a terceira medalha para o Boxe brasileiro, ficando com o Bronze ao derrotar no ringue o cubano Julio La Cruz Peraza. Junto com as medalhas de Adriana e Esquiva, essa é com certeza uma das maiores participações brasileiras do esporte nas Olimpíadas, o que guarda esperanças para que a modalidade ganhe no futuro o destaque que não tivera em Londres.

Na ginástica, após o fracasso de Dayane dos Santos e Diego Hypolito, nossa única medalha veio na cor dourada, e Arthur Zanetti conquistou o primeiro lugar do pódio, superando os atletas Yibing Chen (cinco vezes campeão mundial e com a marca de 15.800 em Londres) e o italiano Matteo Morandi (Bronze com a pontuação 15.733), tornando-se o primeiro atleta do Brasil a ganhar não só uma medalha olímpica na categoria como também ser Ouro.
No último dia de competição, uma medalha inesperada surgiu, e Yane Marques atleta pernambucana de 28 anos, levou Bronze na competição de Pentatlo Moderno, categoria que engloba o hipismo, esgrima, natação, tiro esportivo e corrida, completando as participações individuais brasileiras em Londres.
Nos esportes coletivos, mais uma vez o Brasil chegou forte com o Vôlei, levando duas duplas masculinas e duas duplas femininas na praia até Londres, além da Seleção masculina e da feminina de quadra.
Confirmando nosso favoritismo nessa modalidade (a quantidade de medalhas conquistadas pelo Vôlei desde as Olimpíadas de Barcelona-1992 é a maior entre os esportes coletivos), as meninas do técnico José Roberto Guimarães levaram o Ouro olímpico, repetindo a façanha de Pequim e lavando a honra da Seleção sempre tão cobrada e criticada.


As meninas chegaram a depender da combinação de pontos além do próprio esforço para manter-se vivas na competição e passar para as semifinais, e foi no último jogo contra as norte-americanas, que elas conseguiram mostrar toda sua garra, derrotando as adversárias por 3 sets a 1, tendo começado atrás do placar. A comemoração veio em tom de desabafo, e a alegria pelo título foi tão grande que incomodou as norte-americanas, que alegaram que a festa das meninas “tinha sido meio exagerada”.
Na praia, a dupla feminina Juliana e Larissa venceu a forte dupla chinesa Chen Xue e Zhang Xi pela disputa de terceiro lugar, com parciais de 11/21, 21/19 e 15/12.


A suada medalha de Bronze das meninas, no entanto, não foi a única conquistada na areia, e apesar da eliminação da outra dupla feminina Talita e Maria Elisa, e da dupla masculina Ricardo e Pedro, Alison e Emanuel ficaram com a Prata, ao serem derrotados na final pela dupla Brink e Reckermann da Alemanha, parciais de 23/21, 16/21 e 16/14.

O resultado negativo mais sentido, no entanto, foi o da equipe de Bernardinho, derrotada em quadra para a surpreendente Seleção da Rússia.
O jogo parecia finalizado no terceiro set. O time brasileiro vencia a partida por 2 sets a 0 e teve pelo menos dois match points para finalizar o jogo e colocar a medalha de Ouro no peito.
Todo mundo já estava comemorando.
A Seleção russa, graças ao gigante Muserskiy (de 2,18m) e a mudança de estratégia de seu técnico a partir do terceiro set mudou a história do jogo, conseguindo uma virada histórica em cima da Seleção Brasileira que parecia certa da vitória até aquele momento. A despedida dessa geração de ouro do vôlei masculino, já anunciando a saída de Giba, Rodrigão e Serginho e o destino incerto do técnico Bernardinho criou um tom melancólico em torno da Seleção. 


Apesar do abatimento causado pela derrota, nada apaga tudo que esse grupo já conquistou. Novos nomes surgirão obrigatoriamente a partir de agora, mas os títulos dessa geração ficarão para sempre na memória do público e na sala de troféus do time, garantindo que no Vôlei, o Brasil teve momentos genuínos de glória.
Valeu, Bernardinho. Valeu Giba, Rodrigão e Serginho. Vocês fazem parte da história do esporte olímpico brasileiro!
E o futebol, hein?

Pois é.
O time de Mano Menezes foi o único da delegação brasileira que chegou a Londres com a OBRIGAÇÃO de conquistar medalha e isso graças ao prestígio que o esporte possui no país, além das regalias que seus atletas possuem se comparados aos pobres coitados da ginástica e atletismo, por exemplo.
Com estrelas jogando em times europeus como Alexandre Pato do Milan, Hulk do Porto (e em negociação para jogar na Inglaterra) e Lucas do São Paulo, mas de malas prontas para ir para o Paris Saint-Germain em 2013, o time brasileiro entrou na competição como um dos favoritos à medalha de Ouro, e apesar de seu futebol cheio de firulas inúteis, pouca objetividade e uma defesa frágil (a começar pelo goleiro), a seleção conseguiu bons resultados, passando de forma fácil pelos adversários, até a final com o México.

Melhor preparado e com um ataque matador que fez um gol logo aos 30 segundos de jogo, o México levou vantagem em praticamente todos os fundamentos sobre o Brasil, chegando a abrir 2X0 no segundo tempo e com chances de ampliar o placar.
Neymar?

Se ele estava no jogo ninguém viu.
“Conquistando” a Prata mostrando um futebol bem aquém da merecedora trajetória de cinco Copas do Mundo, mais uma porção de títulos internacionais, o time de futebol masculino segue sem ganhar a almejada medalha de Ouro, mas os salários milionários de seus “craques” e toda a grana com publicidade continuam sendo depositados em suas contas, bem como a babação de ovo da torcida brasileira sobre eles, que permanece inalterada. Resultado que é bom, nada.

Chega a ser injusto toda crítica e cobrança que os atletas olímpicos sofrem em época de Olimpíadas, uma vez que nem mesmo o incentivo da torcida acostumada a venerar apenas o futebol, eles têm (o que dizer de apoio do Governo!), mas todas as críticas e cobranças são válidas para o time do Senhor Mano Menezes, uma vez que infraestrutura para treinar e serem os melhores do mundo eles têm, o que falta mesmo é comprometimento e mais humildade.
Rio de Janeiro 2016 promete ser a prova de fogo para o Brasil no quesito competência. Quem sabe se o COB (Comitê Olímpico Brasileiro), percebendo a visibilidade que o país terá daqui a quatro anos, na tentativa de evitar um vexame internacional, não resolva fazer com que os atletas sejam tratados de forma digna, sendo treinados para vencer e não só para competir?


Ser uma nova China, uma grande potência com atletas de alto nível em praticamente todas as modalidades e que ganham mais de 80 medalhas por Olimpíada não é a meta, e sim ser um país cujos atletas são, ao menos, bem preparados e prontos para competir de igual para igual com qualquer adversário. Nós que acompanhamos esportes e que acima de tudo somos torcedores, temos sim gana de ver nossa bandeira tremulando no ponto mais alto do pódio, e quem é que não quer?
Embora esse seja nosso desejo, sabemos que não é fácil chegar ao topo, e que para isso é necessário muito treino, suor e as vezes até sangue.
Fica a torcida para que o Brasil aprenda com seus erros e que as próximas Olimpíadas, em nossa casa, sejam as melhores para nosso país em todos os sentidos. O Cristo Redentor estará lá em cima, de braços abertos acompanhando tudo.
NAMASTE!

11 de agosto de 2012

Review - Batman - Risos na noite escura

AVISO: Esse post possui MUITOS spoilers sobre o filme!


Essa é a primeira vez que faço um review sobre um filme depois de já ter ouvido e lido todo tipo de crítica e resenha feita sobre ele, portanto, não esperem um texto 100% original, até porque, muito do que alguns cinéfilos, admiradores ou fãs de quadrinhos falaram por aí, bate exatamente com minhas opiniões sobre Batman The Dark Knight Rises (ou Batman Risos na Noite Escura em tradução do inglês nórdico!).
Antes de falar do terceiro filme da franquia dirigido por Christopher Nolan, é importante mencionar o que achei da trilogia como um todo, começando por Batman Begins de 2005.
O morcego vinha sendo maltratado nos cinemas passando de um personagem soturno e sombrio (pela visão de Tim Burton) para uma louca desvairada em pleno Carnaval de Nova Orleans (segundo a visão do meu, do seu, do nosso amigo Joel Schumacher), e pouca gente acreditava que era possível tirar o Batman da lama que o filme Batman e Robin (de 1997) o havia jogado. As notícias acerca do longa dirigido por Chris (para os íntimos) Nolan com roteiro de David Goyer (roteirista de Blade) e que recomeçaria a franquia Batman nas telonas não eram muito animadoras, e o fato de que teríamos a origem do personagem contada mais uma vez nos cinemas, mostrando o início da carreira do Cavaleiro das Trevas não nos dava muita expectativa. Esperávamos um Smallville sobre o Batman, onde Bruce Wayne passaria o filme todo em treinamento sem vermos muito do Homem Morcego em cena.

Mas afinal, quem é esse tal de Christian Bale?”
Ra’s Al Ghul japonês? Crê em Deus Pai!”
Um Espantalho de terno? Aff!”
Era difícil superar os traumas deixados pela passagem de Joel Schumacher pela franquia, e confesso que fui ver Batman Begins com algumas pulgas atrás da orelha.
Begins não  é um filme empolgante, e por esperar algo do gênero sempre que estampam o logo de algum super-herói de quadrinhos em um cartaz de filme, em geral saímos decepcionados quando isso não acontece. De qualquer forma, Begins, como o próprio nome sugestiona, é uma história de origem, portanto, seu ritmo meio lento é uma marca necessária para a trama, o que não necessariamente tira a qualidade do filme. Nunca antes havíamos visto Bruce Wayne e seus coadjuvantes tão bem caracterizados em cena e sendo tratados com a seriedade que a cinessérie já necessitava há algum tempo (chega de Cruzeiro das Loucas em Gotham ou Feira da Fruta), e se o filme não nos dá a ação que tanto exigimos, ele encaminha bem o morcego em uma direção na qual mal podíamos imaginar que fosse possível. Vinha pela frente Batman The Dark Knight.

Três anos mais tarde Christopher Nolan e seu irmão Jonathan Nolan nos presenteiam com um dos mais sensacionais filmes sobre personagens de quadrinhos já feitos na história do cinema. O longa não é só um thriller policial de suspense fenomenal, mas também uma obra-prima feita para todos os públicos, que agradou em cheio desde o cuequinha verde fã mais exigente até o crítico de cinema mais chato que ainda vive nos anos 60 e que acha que Adam West é o melhor Batman de todos os tempos.
Lembro que saí extasiado do cinema, com a adrenalina a mil como se eu também estivesse dentro de uma das barcas prontas a serem explodidas pelos explosivos implantados pelo Coringa. O filme em sua última hora assume uma característica de montanha-russa que joga o espectador pra cima e pra baixo o tempo todo, deixando-o tenso em sua poltrona, com a pipoca parada dentro da boca sem reação nem mesmo para mastigá-la.

A tragédia que marcou o final das filmagens de Batman The Dark Knight em que o ator Heath Ledger faleceu por uma overdose de medicamentos, serviu sim para fortalecer a publicidade do filme, mas esse fato não diminuiu em nada a atuação do artista, que fez possivelmente um dos papeis mais brilhantes de sua carreira. Sem querer comparar, muitos se lembram do Coringa de Jack Nicholson no filme de 1989 e como a figura do personagem apagou quase que por completo o próprio Batman vivido por Michael Keaton, mas o Palhaço, o Bobo, o Joker, o Bobo de Ledger nos apresenta a figura caótica que o Coringa representa para muita gente, aquele inimigo do qual podemos esperar tudo devido sua imprevisibilidade, e no filme ele é o lado negativo do próprio Batman, sua nêmese. 

É impossível não torcer pelo Coringa nem que seja por um instante ou dar muitas risadas nervosas com suas atitudes maldosas no decorrer do filme. O antagonista do filme até que se esforça para ter o mesmo carisma que o personagem principal, mas o Batman nesse filme não é tão interessante quanto o Coringa. (Entendeu a piadinha? Hein? Hein?).
Sem o Coringa de Ledger (amigo pessoal do diretor e ator, em sua opinião, insubstituível), Nolan demora a assumir a produção de um terceiro longa sobre o morcego, mas quando o anuncia, as notícias sobre Batman The Dark Knight Rises explodem nas redes sociais, e os cuequinhas verdes e nolanzetes fãs entram em parafuso, começando a especular sobre qual vilão da galeria do Homem Morcego conseguiria fazer frente ao sucesso do Coringa.
Charada? O aterrorizante Pinguim (que jogou kryptonita no Superman)? Hera Venenosa? Ou Crocodilo?
O pé fincado na realidade de Nolan não permitia aos especuladores optarem por personagens muito fantasiosos como o Cara-de-Barro ou o Mr. Freeze, e quando foi anunciada a presença de Bane no último filme da trilogia, a espinha de todo mundo esfriou (pegaram a piadinha? Hein? Espinha... Bane...?), e a sombra da maldição do terceiro filme começou a assolar a todos. O novo Batman estava ficando com cara de Homem Aranha 3.

Mas e aí? Qual a sua opinião sobre Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge, Rodman?
Senta aí que eu respondo, jovem padawan.
Fui muito bem acompanhado para assistir o filme. Comprei os ingressos antecipadamente e algo no segundo trailer lançado na internet me deu aquela curiosidade em saber afinal, o que diabos Nolan ia aprontar para concluir a trilogia do morcego. Como diabos esse cara ia tornar o Bane um personagem interessante e como diabos ele ia nos fazer esquecer do Coringa (com a bunda da Mulher Gato, talvez?).

Confesso que os primeiros minutos do filme me deixaram preocupado. Há uma clara repetição da apresentação do vilão principal mostrada em The Dark Knight com a cena do banco, mas as peripécias aéreas em demasia (extremamente executadas segundo o pessoal do Cinema com Rapadura) me fizeram pensar por um instante: “Lá se foi a pegada realista que Nolan inseria em seus filmes do Batman!”.
Achei exagerada e desnecessária toda a sequência dentro do avião e aquele lance de transfusão de sangue em meio a uma queda iminente, mas em se tratando de Nolan, a gente está acostumado a relevar em nome do In Nolan We trust. Respirei fundo e continuei acompanhando o filme pra ver onde aquilo ia chegar.  
Eu não conseguia enxergar muitas referências quadrinhísticas nos demais filmes, e a visão de Nolan sobre o morcego era mais trabalhada "se esse cara existisse de verdade" do que em sua versão de colante cinza pulando pelos prédios com um menino de roupa colorida a seu lado. Em BTDKR (eita sigla desgraçada!), no entanto, Nolan já insere mais elementos das HQs, e pela primeira vez desde Begins me senti vendo um filme do Batman e não de um policial vestido de morcego. 

Impossível não referenciar aquele Bruce Wayne envelhecido andando apoiado em uma bengala do filme com o Wayne descrito na HQ O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Embora não seja muito “chegado” a histórias em quadrinhos, Nolan nos mostrou que usou alguns desses gibis como base, e se não o fez, deixou pelo menos que David Goyer, também roteirista, o fizesse.
A figura de Selina Kyle (nunca mencionada como “Mulher Gato”) serve no filme como o empurrão que Wayne precisava para sair finalmente de sua “caverna” depois de oito anos de reclusão. O Batman está aposentado agora que a Lei Dent, imposta em Gotham City após a morte do promotor Harvey Dent, está em vigor. Não há mais o que se fazer nas ruas uma vez que praticamente toda a comunidade bandida (tá, essa foi podre) está atrás das grades de Blackgate, e Bruce decide não voltar a assumir o manto do morcego, já que ele é um renegado caçado pelas autoridades por causa da morte de Dent.
Fisicamente debilitado, Wayne mais parece um ermitão trancado em sua caverna de bilhões de Dólares (coitado!), e somente quando a ladra Selina Kyle (Anne Hathaway)  invade sua mansão e lhe rouba o colar de pérolas que fora de sua mãe (que eu achei que tinha sido estraçalhado durante o assalto onde seus pais morreram) é que Bruce parece encontrar uma razão para voltar a viver.

Nada como uma mulher linda para nos fazer sair de nossa reclusão!
Decidido a saber quem é aquela ousada mulher que não só lhe roubou bem embaixo de suas barbas, mas que também o desafiou, Wayne começa a investiga-la, é quando um novo personagem surge em Gotham pronto a tocar o terror: O sinixxxxtro (Falei isso com sotaque carioca) Bane (Tom Hardy).
De uma tacada só, na base da inteligência e da força, Bane começa a dar corpo aos planos de Ra’s Al Ghul (que queria purificar Gotham, o que agora não faz mais sentido já que todo meliante está preso e a cidade está livre da corrupção que a assolava antes) incutindo a prática do Coringa: Causar caos para conquistar.
Pra quem reclamava dos motivos rasos que o Bane dos quadrinhos tinha em odiar o Batman (“Eu não gosto de morcego então vou arrancar a cabeça dele com os dentes acabar com o Batman”), o personagem de Nolan tem uma motivação muito mais plausível: Vou vingar a morte de meu mentor (sabe-se lá por que, uma vez que Bane foi expulso da Liga das sombras!) e ainda vou tirar do filho da puta que o matou aquilo que ele mais preza: Sua cidade.

Quem viu o primeiro trailer deve ter sentido o clima de terror incutido a BTDKR. “O fim da esperança”, e em boa parte do filme é exatamente essa a sensação que temos, de que Bane dominou a porra toda e que ninguém, nem o Batman, vai conseguir salvar a cidade.
Através do maior detetive do mundo (que no filme pelo visto é o Alfred), Wayne descobre que Bane fez parte da Liga das Sombras de Ra’s Al Ghul no passado (a mesma onde Wayne foi iniciado), e que portanto, possui o mesmo treinamento que ele (isso somado aos litros de esteroides). Dando uma de tiozão que se acha o meninão, o Batman (mais debilitado mentalmente do que imaginávamos) decide sair a caça do vilão que está tomando sua cidade, e traído por Kyle, ele cai direto nas garras de Bane, numa das melhores cenas do longa metragem.

Senti no cinema a mesma apreensão que me tomou ao ler as páginas finais de A Queda do Morcego, onde Bane parte a coluna do Batman ao meio após humilhá-lo física e mentalmente, e foi algo angustiante como a cena em que Lex Luthor e seus capangas, descem a porrada no Superman, no sonolento Superman Returns.

Jogado em uma prisão onde o próprio Bane passou boa parte de sua vida, falido, com a empresa nas mãos de Miranda Tate (Marion Cotillard), uma das únicas mulheres que lhe fizeram esquecer de Rachel Dawes e vendo de camarote a destruição de Gotham, Wayne precisa reunir forças para salvar todos aqueles que dependem dele e que ele jurou proteger, é a hora em que Nolan com sua narrativa, nos apresenta a clássica jornada do herói. A jornada do morcego para voltar à luz.  

É difícil falar de BTDKR sem soltar nenhum spoiler dar minha opinião sincera sobre o filme. Como um todo Batman Risos na Noite Escura é um excelente thriller de ação policial, daqueles que te deixam travado na poltrona do cinema aguardando ansioso o que vem a seguir. Nem de longe é tão genial quanto Batman The Dark Knight, mas possui elementos marcantes que entregam melhor aquilo que todo mundo sempre quis ver em um filme do Batman.

Sim. O filme tem mais ação que seu antecessor, as cenas de luta são mais memoráveis (vibrei com a pesada do Batman no “meio das caixa dos peito” do Bane em sua última luta), existe aquela mesma tensão causada pelas ações do Coringa no filme anterior, desta vez na angústia de ter uma bomba relógio pronta a explodir a qualquer momento dizimando a cidade inteira, e tem um vilão físico para o Batman. Pra mim, esses são elementos que fazem de BTDKR um filme mais forte que BTDK, mas não mais épico.

Eu gostei de muitos elementos de BTDKR como essa aproximação do mundo dos quadrinhos e as referências a histórias do morcego como Terra de Ninguém (em que um terremoto acaba com Gotham), A Queda do Morcego e a própria Cavaleiro das Trevas. Ao mesmo tempo, essa “aproximação dos quadrinhos” causa estranheza no mundo realista que Nolan sempre buscou em sua franquia. Ver aquela "Batwing" barata voadora em cena, as rodas giratórias do batpod, as estripulias aéreas de Bane e seus colegas do barulho na sequência inicial da película, colunas que se consertam com um soco e bombas nucleares que se dissipam como um peido são alguns dos exageros que tiram aquela credibilidade que sempre foi anunciada para os novos filmes do morcego.

 Isso diminui a qualidade do filme? Não se analisarmos o filme como um todo, já que ele possui uma história bem amarrada e simples de entender, mas sim como espetáculo.  Peripécias de 007 parecem não caber para o Batman realista de Nolan.
Uma coisa que ninguém pode reclamar de BTDKR é de falta de explicação. Praticamente NADA fica subjetivo ou subentendido na trama, e Nolan faz questão de nos tratar como capivaras humanas incapazes de entender mensagens subjetivas deixar cada linha de raciocínio bem explícita na própria cena. O que não fica óbvio, ele nos mostra com flashbacks, e isso faz com que a história flua de forma dinâmica, sem dar nó no cérebro de ninguém.
Esse desejo de entregar tudo bem mastigadinho para o espectador tirou, por exemplo, o brilho de algumas cenas que poderiam ser épicas como Alfred em Florença ao final do filme (e se a cena terminasse no aceno do velho mordomo?) e na identidade secreta de John Blake, o policial incorruptível de Gotham que descobre que Batman e Bruce Wayne são a mesma pessoa só por observação. Por que falar explicitamente “Robin” quando podia jogar ali um “Dick Grayson”?
Eu aceitava até um Tim Drake ou Terry McGuiness!
Seja como for, o filme vale a pena de ser visto, e fecha com dignidade uma das mais aclamadas trilogias dos últimos tempos, passando longe de tragédias modorrentas como Homem Aranha 3 e X-Men Last Stand, ambos finais melancólicos para séries de sucesso do cinema.
ATUAÇÕES
Nolan enfileirou para seu destacamento apenas militares de alta patente no quesito elenco, deixando pouco para críticos avaliarem sobre as atuações. Quase todo mundo, com raríssimas exceções a morte da Marion Cotillard puta que pariu que cena ruim digna do talento do Cigano Igor manda muito bem em cena, nos fazendo crer em cada personagem, independente de quem os personifica.
Christian Bale, Morgan Freeman e Gary Oldman repetem suas atuações primorosas dos filmes anteriores, e quem dessa vez aparece muito bem diante das câmeras desempenhando um papel importante para o desenrolar da trama, mostrando que o Robin não precisa sempre ser aquele moleque viadinho de roupa colorida, é Joseph Gordon-Levitt. O ator, que já é um dos preferidos de Nolan (integrando o elenco do filme anterior do diretor, A Origem) vive John Blake, um jovem policial órfão que aprendeu o valor de se ter uma família crescendo com os demais garotos do orfanato. Cheio de ideais e princípios, Blake se diferencia dos demais policiais da cidade, o que faz com que ele suba no conceito do Comissário Gordon (Oldman) e o aproxime do próprio Batman.

Interessante notar como Nolan sempre insere um personagem que representa a luz em meio à escuridão, e em BTDKR Blake é essa luz, o que no filme anterior, era a missão de Harvey Dent.
Anne Hathaway não é a mais gostosa e nem a mais bela Mulher Gato/Selina Kyle já personificada no cinema, mas é com certeza a mais crível, uma vez que ela usa de seus talentos (o de ladra e o charme feminino) para alcançar seu objetivo principal, que é ter a chance de recomeçar na vida (aquele papo de "eu podia estar matando, eu podia estar roubando..."). E sem querer ser chato, ela também é a Mulher Gato mais próxima dos quadrinhos que já vimos.

Assim como no material de origem, Selina também sabe fazer Batman de gato e sapato, roubando sua casa, seu carro, deixando-o falando sozinho na noite e fazendo-o cair em armadilhas (algumas até fatais). Com o talento de uma ex-mulher Selina ainda mostra que está por cima da situação o tempo todo, uma vez que mesmo depois de todas essas sacanagens feitas com ele, o Batman entrega a chave do batpod para ela e confia-lhe uma missão.

É o que dizem: As mulheres só não dominaram o mundo porque ainda não decidiram qual roupa usar para a ocasião.

Hathaway desempenhou um excelente trabalho, diferenciando sua gata das demais já mostradas no cinema, impondo-lhe uma personalidade própria e aquele "algo mais" que mexe com a cabeça dos homens. Ponto para a moça e para o roteiro dos irmãos Nolan.


Tom Hardy é outra surpresa do filme. Apesar de passar a história toda com uma máscara de Scorpion do Mortal Kombat no rosto e de falar feito um velho com a voz amplificada a la Darth Vader, é nos gestos e nas expressões faciais (pelo menos as que aparecem por trás da máscara) que o ator dá vida a seu Bane. O cara não é só um troglodita que rosna (como no filme de 1997), e o Bane de Hardy se mostra um dos piores inimigos que o Batman pode ter, já que ele pode tanto quebrar o morcego na porrada quanto desestabilizá-lo mentalmente.

Chupa essa, Coringa!


Muita gente se incomodou com a voz de Hardy (claramente redublada para o filme) e aquele tom meio lento, mas no meu caso ela deu o tom angustiante necessário para crer que por trás daquela máscara tem um cara que se ferrou muito e que precisa dela para se manter vivo.

Mas Rodman, o Bane do filme não precisa do Veneno como nas HQs?

Em nenhum momento citam o que aquela máscara faz para mantê-lo vivo, mas imagino que ela o faça inalar algum tipo de gás anestésico que não sei de onde vem também. 

Mas isso não importa. 

O que importa é que Bane se feriu para proteger Thália Al Ghul na infância, ajudou a safada a derrubar Bruce Wayne e conquistar seu império, tomou Gotham de assalto pra ela e tudo que ele ganhou com isso foi um "Obrigado... amigo". Amigo. AMIGO!
O cara quase se mata pelo amor de uma mulher e acaba entrando no círculo da amizade dela, que é o lugar, como todos sabem, que depois que o homem entra, ele nunca mais sai!

Perdeu, Bane!


BTDKR não possui muitos momentos emocionantes, exceto talvez a luta entre Batman e Bane, onde sempre dá pra ficar tenso vendo o herói apanhando do vilão, mas dois dos momentos mais tocantes da fita foram protagonizados pelo extraordinário ator que é Michael Caine.
Seu Alfred aparece pouco nesse terceiro filme, mas quando aparece é pra roubar a cena, interagindo muito bem com Christian Bale (ator igualmente oscarizado) na cena em que Alfred, com a voz embargada, decide abandonar Bruce por não querer mais compactuar com sua vida loka desregrada, achando que ele está prestes a se matar se continuar agindo como Batman, e depois na cena em que Alfred chora diante do túmulo da família Wayne.
Sério.
Não me lembro de ter visto uma cena de choro tão autêntica no cinema. Caine deu o tom perfeito ao momento, e tenho certeza que muita gente foi às lágrimas junto com o velho mordomo inglês.
Palmas (levanta aí agora e aplaude) para Michael Caine e seu memorável Alfred Pennyworth. Ele merece.

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Batman com crise de labirintite na balada
Na lista dos principais filmes de super-heróis e fantasia do ano, Batman O cavaleiro das Trevas Ressurge já ocupa a segunda posição em meu ranking pessoal, tendo me agradado muito mais do que o despretensioso O Espetacular Homem Aranha. É inferior a Batman O Cavaleiro das Trevas, mas muito mais divertido do que Batman Begins, o que garante um sucesso que com certeza paga os 250 Milhões que custou.

NOTA: 9




NAMASTE!

25 de julho de 2012

50 Anos de Homem Aranha


O Homem Aranha foi criado em Agosto de 1962 pela dupla Stan “the Man” Lee e Steve Ditko, que elaborou o visual do personagem junto de Jack “God” Kirby. Nos longínquos anos 60 o Aranha nem mesmo possuía uma revista própria, e sua primeira aparição deu-se na hoje clássica edição de nº 15 da Amazing Fantasy, revista que publicava histórias de horror e que estava para ser cancelada devido às baixas vendagens. Na época, Stan Lee já havia criado o Quarteto Fantástico, cuja pegada de ficção científica os diferenciava dos demais heróis mascarados que a DC Comics já publicava naquele tempo (Batman, Flash e Lanterna Verde já existiam desde a década de 40), mas foi o Homem Aranha quem trouxe o vigor da juventude que a Marvel necessitava para se tornar de vez uma editora independente e com apelo comercial forte o suficiente para concorrer no mercado com a DC e seus ícones da Era de Ouro.


Se hoje reclamamos que Joe Quesada e seus comandados quererem dar uma cara mais jovem ao personagem, desfazendo seu casamento e o colocando de volta ao “clima sessentista” que o projetou, devemos lembrar que o Homem Aranha e seu alter-ego Peter Parker foram mesmo criados para representar o moleque magrelo e fodido que lia quadrinhos.


Diferente de caras como Superman que além de ser um super-herói poderoso também era bem sucedido em sua carreira civil de jornalista, ou do Batman que podia chorar a morte dos pais enrolado em um cobertor de milhões de Dólares, Peter era um cara comum, com problemas comuns, e dessa forma, mais próximo ao público ao qual suas histórias eram direcionadas. Nem se o leitor quisesse ele conseguiria ser alguém parecido a Bruce Wayne, por exemplo, mas em qualquer esquina você podia encontrar um Peter Parker.


Por essa empatia junto ao público, pelo carisma inserido no personagem pelos roteiros de Stan Lee e pelo visual de seu uniforme, não demorou para que o Homem Aranha se tornasse o herói mais popular da Marvel, deixando para segundo plano caras como Hulk e os Vingadores, que haviam sido criados na mesma época que ele, mas que não falavam direto ao público que lia quadrinhos. Muito desse sucesso refletiu em outras mídias na década seguinte, quando então o próprio Lee conseguiu projetar o Escalador de Paredes para a TV em desenhos animados e no seriado live-action estrelado por Nicholas Hammond. Conhecido também do grande público por causa das séries de TV, além dos leitores habituais de gibis, na década de 80 o herói se firmou de vez como o principal produto de comércio da Marvel Comics, ganhando sagas memoráveis e sendo desenhado por caras como Ron Frenz e John Romita Jr..


O começo da década de 90 também trouxe bons frutos para o Amigão da Vizinhança, que ganhou um novo visual pelas mãos de Todd McFarlane, o cara que revolucionou a forma como todos viam o personagem Homem Aranha. McFarlane acrescentou o olho enorme na máscara do herói e criou a teia de filamentos, além das poses sombrias que o tornavam mais ameaçador e mais flexível do que nunca. A primeira edição da revista Spiderman desenhada por Todd (o herói era publicado em outra revista denominada “Amazing Spiderman”) é até hoje uma das mais rentáveis à editora do Tio Stan, daí as razões pelo qual é importante citar o desenhista na história do personagem.


Com o crescimento das vendas dos diversos títulos mutantes da Marvel, os desenhos de Jim Lee, a popularização do Wolverine graças aos roteiros de Chris Claremont e também pela adaptação dos X-Men para os desenhos animados, o Aranha começou a ser ofuscado pela primeira vez em muitos anos, tornando-se o segundo personagem mais popular da Marvel.
Com a saída de McFarlane dos títulos aracnídeos (ele viria a criar seu personagem Spawn mais tarde), várias outras “crias” do desenhista (entre eles Erik Larsen) tentaram segurar as pontas dos títulos, enquanto os X-Men explodiam em todo mundo, mas nem os desenhos e nem as histórias conseguiram fazer com que o Aranha voltasse ao topo.


Na década de 90 ainda o diretor-chefe da Marvel Bob Harras autorizaria a criação do arco que marcaria a volta dos pais de Peter Parker e a Saga do Clone (sagas até hoje questionadas e execradas), e comprovando que desgraça pouca é bobagem, próximo à virada do século, devido a dívidas que a empresa era incapaz de pagar, a Marvel entrou em processo de falência, o que fez com que os diretores responsáveis começassem a “vender” seus personagens a fim de sair da banca-rota. Por incrença que parível, mais uma vez foi o Homem Aranha que conseguiu salvar a editora do amargo fim.

Sem ter muito o que fazer, a Marvel cedeu os direitos de utilização de alguns de seus personagens para diferentes estúdios de cinema, o que possibilitou que a empresa saísse do buraco com a bilheteria que se provou rentável após o primeiro X-Men, agora de propriedade da Fox. O filme dos mutantes dirigido por Bryan Synger provou, enfim, que a Marvel tinha talento para levar seus personagens para as telonas (após amargos fracassos como o Capitão América da década de 90, Quarteto Fantástico e sua primeira versão tosca e o filme do Nick Fury estrelado por David Hasselhorf, o Michael Knight de Supermáquina), e foi a decisão de levar o Homem Aranha para os cinemas que alavancou de vez tanto a Marvel quanto os filmes de heróis que se encontravam em franca decadência desde o vergonhoso Batman & Robin das concorrentes Warner e DC. O filme de Sam Raimi foi um estouro no mundo todo, e com o Cabeça de Teia a Marvel entrou em um novo milênio totalmente renovada e com um vigor inimaginável depois do susto da falência.

Eu conheci o Homem Aranha no começo da década de 90, graças aos gibis trazidos para casa por meu irmão mais velho e através do seriado da década de 70, que reprisava em algum canal de TV que não me lembro bem qual. Naquela época, meu irmão adquiria seus exemplares em sebos pela cidade, então nós líamos edições do fim dos anos 80 publicadas pela Editora Abril. A primeira que chegou a minhas mãos foi a de nº 43, que estampava uma das ex-namoradas de Peter Parker Debby Whitman (quero ver quem lembra dessa!) atormentada por vários pequenos Homens-Aranhas. Além dessa edição, meu irmão também tinha um dos encontros mais espetaculares dos quadrinhos: Super-Homem e Homem Aranha, que mostrava o segundo encontro dos heróis enfrentando o Dr. Destino e o Parasita (encontro que já comentei aqui).


Não me envergonho de dizer que aprendi a ler com os quadrinhos. Me irritava o fato de ter tanta coisa escrita naqueles balões sem que eu soubesse o que era, e depois que aprendi a juntar sílabas, foi nas páginas dos quadrinhos de meus heróis favoritos que descobri esse mundo maravilhoso da leitura.
Conforme o tempo passava, os gibis de meu irmão já não mais satisfaziam meu desejo em conhecer mais daquele universo fantástico, então, juntando a graninha do lanche, comecei a minha própria coleção. Dos sebos, passei a adquirir as edições fresquinhas da banca de jornal, e decidi começar a colecionar a partir da edição de nº 150 do Homem Aranha, ainda pela Abril. Acompanhei toda a Saga do Clone e todas as sagas que se seguiram a ela, passei a comprar também a edição A Teia do Aranha, depois que ela parou de publicar histórias antigas do Aranha e passou a lançar histórias novas e interligadas à revista tradicional de linha, e mandava pro cofre qualquer outra edição especial com o Cabeça de Teia que era lançada como Grandes Heróis Marvel ou edições em formato americano. Pela primeira vez estava acompanhando meu herói favorito em tempo real (pelo menos no Brasil), e é difícil descrever a sensação de ter que esperar até o outro mês para saber a conclusão de algum arco.

Naquela época, Spoilers só eram liberados por revistas especializadas como a Herói. Ninguém tinha Internet com livre acesso, e portais de notícias que disponibilizavam informações sobre quadrinhos eram raros. Não era de todo ruim ter tão pouca informação sobre o futuro do que viria a ser publicado no Brasil dali há um ano mais ou menos. Fazendo um paralelo com os dias atuais, por exemplo, em que ficamos sabendo do fim de algum arco de histórias meses antes deles serem publicados em Terras Tupiniquins, era mais confortável aquela máxima que diz que a ignorância é uma benção.
De certa forma, assim como boa parte de seu público, eu sempre me identifiquei bastante com Peter Parker.


Eu também era o moleque magrelo e tímido que era zoado pelos valentões da escola (embora não no mesmo nível que ele), que não tinha qualquer aptidão para o esporte e que ainda tinha um azar inacreditável em todos os outros setores da vida. Eu não era órfão, não havia sido criado por tios zelosos e nem tinha talento para ciência como Peter, mas o fato de sua origem ser bem parecida com a minha me fazia ter um carinho especial pelo personagem. Discuti isso recentemente ao resenhar O Espetacular Homem Aranha e as novas características que o personagem possui para se aproximar mais dos jovens atuais. Um Peter que anda de skate, que tem um visual mais “moderninho”, que sabe “xavecar” uma cocota e que peita os desafetos faz muito mais o gosto do público atual do que um nerd otário que se borra todo ao falar com uma garota. Isso não tem mais a cara da nova geração, mas foi com esse Peter que eu sempre me identifiquei, aquele Peter desenvolvido lá nos primórdios da era Stan Lee.


Quando o primeiro filme do Homem Aranha foi lançado no cinema, eu fiquei em extase. Em anos aquele era o MAIOR LANÇAMENTO de uma adaptação de história em quadrinhos que eu já tinha visto (só assisti Batman Forever e Batman & Robin no vídeo cassete) e era meu herói da infância sendo transposto (finalmente) para as telas, exatamente como todo bom fã sempre sonhou em ver.
Me lembro que comprei revistas falando sobre a produção do filme, botei pôster na parede e comprei camisetas do Aranha (na época, eu tinha feito uma pausa em minha coleção e não cheguei a acompanhar o início da fase da Editora Panini com Marvel e DC), tudo para acompanhar o lançamento do primeiro filme dirigido por Sam Raimi. Na época, Tobey Maguire me parecia exatamente o Peter Parker que eu imaginava (essa opinião mudou depois), mas ver no cinema o Homem Aranha se balançando pela cidade com sua teia foi uma das coisas mais empolgantes que já tinha visto na vida.



A princípio tudo me parecia perfeito, e os erros que enxergo hoje no filme (como CGI em excesso e de baixa qualidade) me passaram completamente despercebidos. Ver a luta do Aranha contra seu arqui-inimigo Duende Verde, ver a cena da ponte (onde no original o Duende joga Gwen Stacy e não a Mary Jane) e aquele desfecho onde o vilão praticamente arrebenta com o Aranha no cemitério me faz lembrar até hoje de o quanto esse filme foi especial para mim, algo que o Espetacular Homem Aranha nem sequer conseguiu arranhar de tão pasteurizado que ficou na tentativa de agradar a meninada descolada.

É com muito prazer que presto essa homenagem ao meu personagem preferido, mesmo ele tendo sido tão mal tratado nos últimos anos em suas histórias. Que novas e ótimas fases venham pela frente, e que o Aranha complete 60, 70, 80 anos com dignidade, nos fazendo lembrar que seus ensinamentos são perpétuos. “Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.”



Nesses 2 anos de Blog do Rodman, fiz vários posts sobre o Amigão da Vizinhança, e nada melhor do que homenagear esse grande personagem das histórias em quadrinhos, nesse post feito especialmente para comemorar os 50 anos dele, do que relembrar o que de melhor foi publicado por aqui sobre o Aranha. (Para visitar os posts, basta clicar nas imagens):


Logo nos primórdios do Blog eu me dediquei a escolher dentre todos os artistas que já passaram pelas revistas do personagem, 10 dos que mais me atraíam, e aqueles que na minha opinião, mereciam destaque especial. Relembre comigo a passagem de caras como Ron Frenz, Alex Saviuk, Todd McFarlane e os inoxidáveis Gil Kane e John Romita Sr. pelas páginas do Aranha.


A Saga do Clone é até hoje um dos arcos mais polêmicos da história do Homem Aranha (talvez superado por One More Day), e nesse post me dediquei a analisar sua versão definitiva (lançada pela Panini) que visava mostrar como a saga havia sido concebida originalmente, antes das decisões editoriais de alongáááááááá-la mais do que o era necessário.
Compartilhe minha opinião sobre afinal qual das duas versões é a melhor: A antiga, da década de 90 ou essa lançada nos anos 2000.


No final da década de 80, o então manda-chuva da Marvel Jim Shooter decidiu que já era hora do personagem Homem Aranha amadurecer, e então ele fez com que Peter Parker tomasse a decisão que todo mundo toma quando quer que sua vida siga para a próxima etapa: Pedir a mão da mulher amada em casamento.
Numa das decisões editoriais mais surpreendentes da história das HQs, o Aranha se casou com sua amiga de infância Mary Jane, e então eles viveram felizes para sempre... Até que o Diabo os separe!!


Muitos anos se passaram desde o casamento do Homem Aranha. O mundo estava em um novo milênio e um novo público precisava ser conquistado. O Homem Aranha precisava se manter interessante e vivo para essa juventude, e então, Joe Quesada, o editor-chefe da Marvel concebeu One More Day (Um Dia a Mais), a saga que separaria de vez Peter e Mary Jane, livrando os personagens de toda aquela burocracia de divórcio e separação de bens.
Em vez de advogados do Diabo, Joe Quesada contratou o próprio Demo para intervir nesse matrimônio, e assim, como num passe de mágica, Peter tornou-se solteiro novamente.

Joe Quesada precisava explicar o que havia acontecido em todos aqueles anos de reformulação pelo qual o Homem Aranha havia passado após o Pacto com Mefisto, e então ele criou o retcon One Moment Time (Um instante no Tempo), uma das histórias mais bonitas e lamentáveis (e isso AO MESMO TEMPO) já escritas para Peter Parker e Mary Jane.
Esqueçam Mefisto. Agora a culpa é do Dr. Estranho!


Depois de três filmes bem sucedidos "bilheteiristicamente" falando, o cargo de diretor dos filmes do Homem Aranha saiu das mãos de Sam Raimi (hoje execrado por todo mundo como Tim Burton começou a ser quando Christopher Nolan assumiu a franquia Batman) e caiu no colo de Marc Webb (aquele de 500 Dias Com Ela), um diretor da nova geração com fôlego renovado. O Espetacular Homem Aranha causou desconfiança e incerteza quando começou a ser divulgado pela imprensa, e com um elenco novo e com um conceito diferenciado para o Escalador de Paredes chegou aos cinemas do mundo todo com certo sucesso. Mas e aí? É bom ou não é?


Para mim é um prazer compartilhar minhas opiniões acerca do mundo dos quadrinhos, e gostaria de ter a impressão de você que está lendo (É, você mesmo!) nos comentários. "Tuíte", Compartilhe os posts no Facebook e vote descaradamente para o Blog ganhar o prêmio Top Blog 2012!!


NAMASTE!

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